Terça-feira, 11 de Setembro de 2012

O paraíso queimado - Lúcio Flávio Pinto

Texto extraído: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/cartas-amazonia/o-para%C3%ADso-queimado-135752358.html

 

A distância entre o Japão e a Austrália é de menos de sete mil quilômetros. Era no seu quase vizinho que o Japão ia buscar o minério de ferro de que precisava para sua siderurgia, dentre as várias matérias primas essenciais das quais sempre foi carente. Essa rota tradicional de comércio mudou com a revelação de que, do outro lado do mundo, fora descoberta uma jazida muito mais rica do que o ferro australiano. A partir do momento em que a mina da serra dos Carajás começou a produzir, em fevereiro de 1985, no interior do Pará, a quase 900 quilômetros do litoral, a compra de minério brasileiro pelo Japão, antes restrita a Minas Gerais/Espírito Santo, se incrementou. Mesmo a distância a percorrer sendo quase três vezes maior, a compra era proveitosa: o minério de Carajás tem o dobro do teor de hematita contida na rocha do minério australiano. Rende mais, permite poupar energia e outros insumos, e, mesmo com o frete mais caro, proporciona lucro maior. Foi por esse motivo que um projeto, concebido inicialmente para atender ao mercado americano, mudou de direção. Hoje, 80% do ferro de Carajás, o melhor do mundo, vai para a Ásia, a 20 mil quilômetros de distância. Atraídos para Carajás por esse presente da geologia da Amazônia, os japoneses tiveram outra surpresa agradável nas primeiras viagens que fizeram à região, distante e isolada quando o projeto começou a ser implantado, na metade dos anos 1970. O lugar não abrigava apenas o maior depósito de minério de ferro de alto teor da crista terrestre: era um paraíso. O minério aflorava no topo achatado das serras, um platô ferruginoso dominado pela canga, com altitudes de até 600 metros. As encostas dessas elevações eram cobertas de vegetação densa, sobressaindo-se a valiosa castanheira, cujo adensamento era indício da fertilidade do solo. Numerosas drenagens serpenteavam no alto e nos fundos de vales. Em torno das jazidas, dois rios de porte considerável. Além disso, uma fauna riquíssima, com algumas espécies endêmicas, só encontradas ali. Sem falar nos testemunhos arqueológicos da presença humana nas cavernas há milhares de anos. Se não viesse a se constituir na mais importante província mineral do mundo, com outros minérios em grande colume, além do ferro (manganês, cobre, níquel, bauxita e ouro). Carajás podia ser um convidativo destino turístico. Através de trilhas na mata fechada chega-se a lagos, igarapés, córregos e cachoeiras. Avistam-se animais de grande e pequeno porte. Podem-se escalar as serras, sentindo a umidade e o frio pelo caminho. Um cenário de parque natural a contrastar com a paisagem árida e muitas vezes hostil das tradicionais zonas de mineração, inclusive na Austrália. Um cenário que foi mudando com rapidez e profundidade à medida que os fluxos migratórios se intensificaram, especialmente a partir da descoberta do maior garimpo de ouro a céu aberto, o de Serra Pelada, em 1980. O desmatamento foi tão intenso e brutal que a última concentração de floresta nativa, daquele Éden que tanto surpreendeu os primeiros emissários do Japão, se restringe a 400 mil hectares (área equivalente à soma de todas as unidades de conservação do Mato Grosso do Sul) de floresta nativa. Em torno, vegetação secundária que regenerou nos solos menos pobres, palmeiras, pastagem e degradação. Em menos de quatro décadas, a Amazônia virou sertão em todos os lados de Carajás, exceto na vizinha reserva dos índios Xikrin do Cateté, que ainda conseguem manter a integridade florestal, apesar de uma exploração seletiva de madeira. A constante pressão das frentes econômicas fez a antiga Companhia Vale do Rio Doce, ainda quando estatal, patrocinar junto ao governo a criação de cinco unidades de conservação. Elas formam um cinturão ecológico de defesa do ambiente natural ameaçado, mas é também um cordão de segurança da empresa contra garimpeiros e aventureiros, que tentam invadir seus vastos e preciosos domínios, sempre muito cobiçados. Apesar do interesse corporativo da Vale em torno das áreas de proteção ambiental, colocadas sob a jurisdição do governo, elas são a causa da existência desse oásis de natureza original num mar revolto de devastação implacável. Nos últimos anos, porém, um novo inimigo se constituiu: os incêndios. Eles se tornaram maiores e mais frequentes à medida que a estação seca se tornou bem definida e mais prolongada. As estiagens na região se tornaram rigorosas. A cada nova estação, incêndios maiores. O deste ano, que destruiu mais de 500 hectares de floresta, foi recorde. Durou 15 dias, até o dia 31 (sem contar o período de rescaldo do fogo, que deverá se prolongar por três semanas). No final do combate às chamas, as equipes já somavam 100 pessoas e dois helicópteros, mas demorou para que a ação assumisse dimensão proporcional não só à ameaça do fogo como ao valor que tem a Floresta Nacional de Carajás, a área mais atingida e destruída. Os meios reduzidos diante da grandeza do incêndio podem explicar a proporção que o sinistro assumiu. Mais esse episódio na história dos incêndios em Carajás talvez possa contribuir para a formação de uma consciência mais justa sobre aquela região. Se o minério de ferro é o item principal na pauta de exportação do Brasil (como do Pará), respondendo por parcela considerável das divisas que entram no país e movimentam sua economia, é bom não esquecer que o paraíso natural de Carajás é um patrimônio nacional. É um bem que não vai ser exportado, nunca mais retornando, como o minério, que não é renovável. Mas não pode ser destruído pelos brasileiros insensatos, que, por um azar da história, têm um poder maior do que aqueles que querem manter a integridade da natureza no Brasil.

publicado por jondisonrodrigues às 13:11

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