Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Entrevista com Prof Dr Carlos Frederico Bernardo Loureiro - Educação Ambiental

Um diálogo entre pedagogia e educação ambiental. Pátio: revista pedagógica, Porto Alegre, p. 18 - 21, 20 maio 2010.

LOUREIRO, C. F. B. Um diálogo entre pedagogia e educação ambiental. [2010]. Porto Alegre:. Entrevista concedida a Cristina Amaral

Disponível em: http://www.revistapatio.com.br/sumario_conteudo.aspx?id=759

 

Entrevista

Carlos Frederico Bernardo Loureiro

Cristina Amaral

O Brasil é, reconhecidamente, um dos países mais avançados na discussão da questão ambiental. Porém, na hora da internalização dessas discussões no âmbito escolar, encontra problemas. Quem faz essa afirmação é o professor Carlos Frederico Bernardo Loureiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Além de atuar nos programas de pós-graduação em educação e em psicossociologia de comunidades e ecologia social, Loureiro é líder do Laboratório de Investigações em Educação, Ambiente e Sociedade, também da UFRJ, e professor em programas universitários de educação ambiental, autor de diversos livros e consultor de instituições públicas e privadas. Nesta entrevista, concedida com exclusividade à Pátio, ele analisa a educação ambiental no Brasil hoje, como esta se relaciona com a ecopedagogia, e afirma que não é possível educar para a consciência ambiental sem levar em conta o entorno da escola. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.


O que é a ecopedagogia e como se relaciona com a educação ambiental?

A ecopedagogia vem no bojo de uma discussão dos anos 1960, virada dos anos 1970, de como internalizar não só as questões ambientais de modo geral, mas todas as polêmicas e inquietações que a questão ecológica traz. Ela se situa no mesmo âmbito da construção da educação ambiental, embora não deva ser vista como a mesma coisa. A ecopedagogia é uma proposta pedagógica que aborda as questões ambientais tanto no sentido físico e biológico, tal como as pessoas geralmente a entendem, quanto no sentido de que o homem é um ser que pertence à natureza e que coabita o planeta com as demais espécies. A educação ambiental é mais ampla, uma vez que se institucionalizou, e existe inclusive uma política nacional de educação ambiental; a ecopedagogia é uma abordagem pedagógica do campo da educação que dialoga com a própria educação ambiental.


Como a educação ambiental chegou ao Brasil?

Nos anos 1960, o que aparece no mundo da educação é a seguinte discussão: precisamos internalizar a questão ambiental no sentido mais profundo, mais radical do termo. Discussão esta que vem acompanhada de uma crítica profunda ao capitalismo. Quando a educação ambiental chega ao Brasil, na época da ditadura, e logo depois, no início da abertura, os movimentos sociais estavam esfacelados, o que fez com que as reflexões típicas da esquerda europeia demorassem a chegar. Quando elas chegam, acabam apresentando uma leitura técnica. Como resultado, a educação ambiental configurou-se, em seu início, como conteúdo de ecologia. Ela vai ganhando essa outra feição, mais ampla, nos anos 1980, quando ocorre o processo de democratização e essas discussões ganham corpo no Brasil. É quando a educação, em geral, e a educação popular, em particular, especialmente na figura de Paulo Freire, aproxima-se da educação ambiental. Então ela passa a ser realmente um processo de discussão de cidadania, de reflexão da existência de discussão de políticas públicas e de uma ação coletiva.


Qual a importância de Paulo Freire nesse contexto?

No final dos anos 1980 e em toda a década de 1990, Paulo Freire - ele e todo o campo da educação popular - começa a reconhecer que a questão da natureza também é central nas reflexões acerca da emancipação humana, da liberdade, da autonomia do homem. E passa a perceber que, na verdade, os processos de destruição da natureza estão estreitamente ligados aos processos referentes a como a sociedade se organiza, como as relações sociais definem-se no capitalismo como forma de dominação e de expropriação. Paulo Freire começa a enxergar que a luta social é também uma luta ambiental, e vice-versa. Romper com essas relações sociais de expropriação e dominação significa melhorar nossa relação com o mundo. Portanto, pensar um ambiente que seja ecologicamente equilibrado significa pensar uma sociedade que seja assim. Paulo Freire enxerga isso muito bem e vai influenciar a educação ambiental no Brasil.


Estamos falando da educação ambiental como educação transformadora, mas ela também pode ser um modo de reprodução das relações de exploração e dominação?

Sim, pode! É fundamental lembrar que a educação ambiental ou a ecopedagogia são práticas sociais do mundo da educação - e a educação nunca pode ser vista como a salvação do mundo. Ela é um componente essencial para a construção da autonomia, da reflexividade, da capacidade crítica e do exercício da cidadania; porém, como tudo o que faz parte da prática social, vive as contradições que são próprias de tal sociedade. Então, assim como a educação ambiental pode promover essa discussão sobre nós no mundo, nossa relação com o outro, com o que usamos, com o que nos apropriamos, ela também pode induzir a certos mecanismos que reproduzem toda essa sociedade com uma roupagem verde.


O senhor poderia exemplificar?

É muito comum, por exemplo, você ver práticas de educação ambiental que descolam a esfera individual das formas de apropriação coletiva daquele bem natural. Tomemos o exemplo do lixo: discute-se a coleta seletiva de lixo na escola, mas eu não posso implantar a separação do lixo na escola e a destinação dele para a reciclagem sem discutir como aquela mercadoria foi produzida. Na verdade, grande parte do impacto ambiental do que se torna lixo acontece na produção dessa mercadoria. Eu não posso propor a discussão da reciclagem sem discutir por que eu consumo determinadas coisas e por que consumir determinadas coisas me dá status, me dá sentido de realização. Estas são questões bem mais profundas.


Quais são as consequências dessa situação?

Quando há esse descolamento, o que acontece é que você apenas tira um peso da sua consciência, porque destinou o lixo para a reciclagem, mas não necessariamente diminui sua produção de lixo. Existem pesquisas que mostram que, ao contrário disso, muitas vezes o consumo não diminui, mas sim aumenta. Você se sente confortável. Você não se questiona por que está consumindo o refrigerante, por exemplo, qual o impacto da produção desse refrigerante, as relações de trabalho no local de produção, ou por que razão eu tomo refrigerante em vez de suco natural. Quando você descola a esfera individual da esfera da política pública, da esfera de suas relações sociais no mundo, e joga toda a responsabilidade sobre o indivíduo, fica parecendo que é apenas uma questão de escolha pessoal diante do mundo. Nesse caso, a tendência é muito mais reproduzir a lógica da sociedade do que questioná-la.


Essa é uma visão hegemônica no campo das discussões sobre a questão ambiental?

Não. Existem hoje diferentes concepções do problema ambiental. Há, por exemplo, a visão mais conservacionista, cujo foco recai na proteção do que sobrou da natureza. Há uma leitura - bastante otimista - que diz que o problema ambiental é apenas uma questão de desenvolvimento tecnológico e de adequação do comportamento. Nessa concepção, desde que se defina o que é correto fazer e que se faça uma boa gestão de recursos, com uma tecnologia correta, tudo dará certo, ou seja, a natureza será preservada e nós poderemos continuar com a mesma lógica de desenvolvimento econômico. E uma terceira vertente é o chamado ecologismo dos pobres, um termo cunhado na Espanha, de que eu particularmente nem gosto muito, por ter uma terminologia dúbia, mas que se apoia nessa leitura crítica segundo a qual não adianta nem tentar isolar o que se tem, porque é inviável, nem apostar apenas na modernização tecnológica, porque o problema está na própria natureza da relação, isto é, o que gera os processos de injustiça ambiental são os mesmos processos que geram a injustiça social. Os grupos sociais que vivem vulneráveis, sob risco, do ponto de vista ambiental, não estão nessa situação por acaso, mas porque são socialmente colocados em uma condição de exclusão.


O senhor poderia explicar melhor?

Vejamos o exemplo das chuvas no Rio de Janeiro e das mortes por desabamentos - que se repetem, aliás, em todo o país. As pessoas fazem um uso ideológico da chuva. Dizem: "Ah, é porque choveu demais", ou então: "Ah, mas as pessoas insistem em construir as casas onde não podem...". O caso é justamente o contrário: as pessoas moram onde podem! Se eu não tenho condições de morar em uma propriedade privada, vou morar em um local de posse. E um local de posse é obviamente um local de risco; se não fosse, o mercado já o teria usado para especulação imobiliária.

Qual a postura do ecologismo dos pobres diante disso?

Ele procura mostrar que a alternativa para uma sociedade ecologicamente viável passa pelo reconhecimento das lutas sociais de grupos que historicamente foram excluídos do âmbito do capitalismo e que apresentam em sua forma de viver, em termos econômicos e culturais, uma alternativa não mercantil. Grupos como quilombolas, caiçaras e seringueiros têm um modo de se organizar, de se relacionar com o mundo e de produzir que é diferente da lógica de acumulação e destruição progressiva na qual vivemos. São grupos ecologicamente relevantes, com os quais podemos aprender não porque sejam "bonzinhos" no sentido moral, mas porque mostram uma alternativa social ao que está aí. Aliás, esta é uma atribuição importante da educação ambiental: desnaturalizar essas verdades consolidadas que tendemos a encarar como únicas. Não se trata de voltar ao passado, mas de aprender com essas culturas para a construção de uma sociedade que seja viável para todos, sem destruir a natureza. Esse é um falso dilema imposto por essa sociedade.


Qual é a lógica - e a prática - da educação ambiental na escola de hoje?


O Brasil é, reconhecidamente, um dos países mais avançados na discussão da questão ambiental. Porém, na hora da internalização dessas discussões no âmbito escolar, encontramos problemas. O que acontece hoje nas escolas é muito diversificado e depende em grande parte de onde está a escola. Eu diria que existem vários tipos de educação ambiental no país ao mesmo tempo. Em termos de concepção, algumas são mais focadas na questão da conservação do meio ambiente, enquanto outras priorizam o comportamento do aluno. Outras ainda já pensam mais nesse processo coletivo, na organização da sociedade e na intervenção em alguns espaços. De modo geral, essas últimas acontecem em escolas públicas, que são mais abertas a esse tipo de discussão e ao diálogo com a comunidade, as organizações comunitárias e os movimentos sociais.


Nas escolas privadas é diferente?

A escola privada não é muito aberta a isso. Tanto é que, no Brasil, geralmente é na escola privada que as experiências acontecem mais na forma disciplinar. O que não significa que não aconteçam situações interessantes nas escolas privadas. Na verdade, não existe uma receita de bolo. Às vezes, ações que podem parecer fragmentadas, ações realmente disciplinares, têm resultados interessantes. Depende muito de como elas são conduzidas.


Que disciplinas favorecem o trabalho com a educação ambiental?

Existem algumas disciplinas que, inclusive por força de sua constituição no Brasil, estão mais próximas da questão ambiental, como história, geografia e biologia, por exemplo. Mas hoje já podemos ver experiências interessantes criadas por professores de português, matemática, artes e educação física nessa visão da ecopedagogia, que é muito mais um olhar novo sobre o mundo do que um conteúdo específico. Não se trata de desqualificar a matemática ou a biologia, muito pelo contrário. Trata-se de pensar essas disciplinas sob um olhar que recoloque o homem como um ser que pertence à natureza, e não como um ser que está contra a natureza.


O sair da escola, o extramuros, é fundamental?

Se pensarmos na proposta da ecopedagogia como um todo e considerarmos que ela não se esgota nessa mudança de atitudes e comportamentos individuais, fica claro que a prática da educação ambiental está fortemente voltada para esse diálogo da escola com a comunidade que atende, ou seja, o seu entorno.


Que ações o senhor pode citar como exemplares em escolas brasileiras?

Existem boas experiências no país que, infelizmente, não conseguem se universalizar como políticas públicas que garantam a educação ambiental como um direito para todos. Isso acontece porque nem toda experiência pode ser replicada; o que dá certo num local às vezes não dá certo em outro devido a inúmeros fatores. Podemos citar escolas na região Sul que estão fazendo a adequação física do espaço para gerar menos impacto no consumo de água, de energia, na produção de lixo. Outras experiências, também no Sul, estão vinculadas a ações com as comunidades e estabelecem uma relação bastante concreta do ambiental com a realidade de vida de determinados grupos, como pescadores em áreas de lagoa, por exemplo. No Rio de Janeiro, existem processos de educação ambiental que estão discutindo a construção de uma Agenda 21 Escolar. Na Bahia, está sendo criado um programa estadual de educação ambiental que procura adaptar essas diretrizes gerais ao conjunto do sistema educacional baiano.


E no resto do mundo?

No cenário internacional, existem boas experiências na Europa, mais especialmente na Espanha, assim como no Canadá e em Cuba. Porém, volto a dizer, se elas não forem acopladas a uma discussão pedagógica mais ampla, ficarão vazias.


publicado por jondisonrodrigues às 00:57

link do post | comentar | favorito
 O que é? |  O que é?

-mais sobre mim

-pesquisar

 

-Novembro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

-Visitas

-arquivos

-links

blogs SAPO

-Visitantes Maps