Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Os alquimistas estão chegando. Estão chegando os alquimistas?

Jorge Ricardo Coutinho Machado

 

Disponível em: http://www.ufpa.br/eduquim/alquimistas.htm

RESUMO

Este artigo propõe uma nova abordagem para o ensino de Química a partir das perspectivas abertas pelo pensamento de Boaventura Sousa Santos e pelo movimento que, à falta de um termo melhor, é genericamente denominado como “pós-modernidade”. Nesse sentido sugere que, talvez, a convergência da Ciência Química com o conhecimento popular possa ressignificar alguns conceitos fundamentais da Alquimia, a saber: a organicidade do universo natural e social, e a relevância do papel do observador diante dos fenômenos, oportunizando a emergência de uma nova ética na ciência e na educação científica que aponta para a necessidade, hoje, de uma “ciência prudente para uma vida decente”.

1. INTRODUÇÃO: FALANDO DE ALQUIMIA

Um antigo documento, um manifesto que, segundo a tradição, foi escrito por Hermes Trismegistus1 com uma ponta de diamante sobre uma lâmina de esmeralda2 é o principal candidato a ser o paradigma da Alquimia, se é que algum dia este movimento cultural universal poderá ser abarcado por algum paradigma. Diz esse documento (Machado, 1991) o seguinte:

É verdade,

sem mentira, certo e muito verdadeiro:

O que está embaixo é como o que está no alto, e o que está no alto é como o que está embaixo; por essas coisas fazem-se os milagres de uma só coisa. E como todas as coisas são e provêm de UM pela mediação do UM, assim todas as coisas são nascidas desta coisa única por adaptação.

O sol é seu pai, a lua é a mãe. O vento o trouxe em seu ventre. A terra é seu nutriz e receptáculo. O Pai de tudo, o Thelemeu do mundo universal está aqui. Sua força ou potência está inteira, se ela é convertida em terra. Tu separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, docemente, com grande desvelo. Ele ascende da terra e descende do céu, e recebe a força das coisas superiores e das coisas inferiores. Tu terás por esse meio a glória do mundo e toda obscuridade fugirá de ti.

É a força, força de toda força, pois ela vencerá qualquer coisa sutil e penetrará qualquer coisa sólida. Assim, o mundo foi criado. Disso sairão admiráveis adaptações, das quais o meio é aqui dado.

Por isso fui chamado Hermes Trismegistus, tendo as três partes da filosofia universal.

O que disse da Obra Solar está completo.”

Embora sujeita a controvérsias, a Tábua da Esmeralda tem sido admitida como um conciso tratado sobre a obra alquímica, sendo o segundo parágrafo uma sucinta descrição de uma cosmologia orgânica ao afirmar que O QUE ESTÁ EM CIMA ENCONTRA ANALOGIA COM O QUE ESTÁ EMBAIXO, E VICE-VERSA. Seu terceiro parágrafo parece ser uma breve descrição de um processo laboratorial de purificação de alguma material “cujo pai é o sol, carregado pelo vento e gestado no interior da mãe terra” e que ao ascender ao céu e descer à terra3 adquire propriedades miraculosas. Finalmente, a chamada Obra Solar tem sido, em meio a violentas polêmicas, associada a fenômenos de fusão nuclear a frio...

Mais do que uma ciência ou uma pré-ciência, talvez a única expressão que possa abarcar a verdadeira amálgama de idéias, práticas, concepções e instrumentos em que se transformou a Alquimia, seja denominá-la singelamente de “movimento cultural”. Parece pouco, mas infelizmente é a única segurança possível.

Bergier (1980)4 afirmou certa vez que a Alquimia seria como um hipotético receptor de rádio encontrado numa escavação arqueológica e sobre o qual ninguém saberia que serve para captar estações transmissoras ou que precisa de pilhas para funcionar. Para ele, falta o contexto dentro do qual poderia ser inserida a origem e as práticas alquímicas, que estariam definitivamente perdidas.

Sem pretendermos nos demorar nas considerações sobre a Alquimia, já que as referências bibliográficas (Machado, 1991; Goldfarb, 1987; Laszlo, 1997) poderiam disso dar conta posteriormente, pretendemos aqui resgatar do saber alquímico certos preceitos fundamentais que, em tese, o aproximariam do pensamento pós-moderno. Dessa forma, talvez seja possível o diálogo entre os séculos e a ressignificação do saber alquímico à luz da pós-modernidade, com importantes contribuições para a formação de professores de Química e para a educação científica em geral.

O primeiro princípio alquímico que destacamos afirma que O QUE ESTÁ EM CIMA É COMO O QUE ESTÁ EMBAIXO, E VICE-VERSA, o que evidencia uma preocupação em abarcar a totalidade dos fenômenos e estabelece, como norma, que a manipulação pelo alquimista do material no cadinho pode ser microcosmo perfeitamente entrelaçado a um macrocosmo presente no lugar e momento daquela manipulação. Existe portanto uma correspondência entre as leis e os fenômenos dos diversos planos de Existência e da Vida5 Segundo o CAIBALION:

“Os antigos Hermetistas consideravam este Princípio como um dos mais importantes instrumentos mentais, por meio dos quais o homem pode ver além dos obstáculos que encobrem à vista o Desconhecido. O seu uso constante rasgava aos poucos o véu de Ísis e um vislumbre da face da deusa podia ser percebido. Justamente do mesmo modo que o conhecimento dos Princípios da Geometria habilita o homem, enquanto estiver no seu observatório, a medir sóis longínquos, assim também o conhecimento do Princípio da Correspondência habilita o Homem a raciocinar inteligentemente do Conhecido ao Desconhecido. Estudando a mônada ele chega a compreender o arcanjo” (CAIBALION, 2002. Pag. 22)

Se é verdade que existem essas teias, podemos admitir que a concepção alquímica é essencialmente orgânica e os fenômenos nunca poderiam ser percebidos como partes, relacionadas mas independentes, de um sistema mecânico.

O segundo princípio alquímico relevante para estas considerações diz respeito à aparente “insanidade” de algumas operações, incompreensíveis à luz do conhecimento químico moderno. Uma das operações clássicas da alquimia é a seguinte: o alquimista mistura alguns reagentes e coloca essa mistura num destilador. Realiza em seguida a destilação e obtém o que se convencionou chamar o “espírito” daquele material6. No destilador sobravam as “cinzas”, às quais o alquimista adicionava o “espírito” e voltava a destilar. Esta operação era repetida inúmeras vezes, como num ritual religioso. Parece algo insano7, mas talvez esteja justamente aí a prática de algum tipo de elevação espiritual incompreensível para os químicos modernos... De qualquer forma, parece evidente nesse processo uma certa relevância ao papel do observador, como ser influente capaz de modificar com sua presença, devoção e elevação espiritual, os rumos do processo com a matéria. De fato, um preceito alquímico reza que somente o paciente, devotado, perseverante e bom será agraciado com a glória da revelação que acontece, e isto é muito importante, não quando o alquimista deseja, mas quando está preparado para perceber a revelação como graça divina. Dessa forma, mais do que observador imparcial de uma natureza que lhe é estranha, o alquimista é participante, companheiro, do processo que se dá no laboratório, de quem espera-se que seja merecedor de receber as chaves do segredo.

O terceiro princípio alquímico introduz profundas preocupações éticas nas práticas e na vida pessoal do alquimista. O discurso de Fulcanelli8 reproduzido abaixo é manifesto em favor dessa ética da caridade e da prudência9:

“Scire. Potere. Audere. Tacere.

(Zoroastro)

A natureza não abre a todos indistintamente a porta do santuário.

Nestas páginas, o profano descobrirá talvez alguma prova de uma ciência verdadeira e positiva. No entanto, não poderíamos persuadir-nos de convertê-lo porque não ignoramos como os preconceitos são tenazes, como é grande a força das idéias preconcebidas. O discípulo tirará mais proveito dele, com a condição, todavia, de não desprezar as obras dos velhos Filósofos, de estudar atentamente os textos clássicos, até que tenha adquirido suficiente clarividência para discernir os pontos obscuros do manual operatório.

Ninguém pode pretender possuir o grande Segredo se não fizer concordar a sua existência com o diapasão das pesquisa empreendidas.

Não basta ser estudioso, ativo e perseverante, se falta o princípio sólido, de base concreta, se o entusiasmo imoderado cega a razão, se o orgulho tiraniza a capacidade de julgar, se a avidez se desenvolve sob o brilho de um astro de ouro.

A ciência misteriosa exige muita justeza, exatidão, perspicácia na observação dos fatos, espírito são, lógico e ponderado, uma imaginação viva sem exaltação, um coração ardente e puro. Exige, além disso, a maior simplicidade e absoluta indiferença em relação às teorias, sistemas, hipóteses que, fazendo-se fé nos livros ou na reputação dos autores, se admitem geralmente sem controle. Deseja que os aspirantes aprendam a pensar mais com o seu cérebro e menos com o dos outros. Pede-lhes, enfim, que procurem a verdade dos seus princípios, o conhecimento da sua doutrina e a prática dos seus trabalhos na Natureza, nossa mãe comum.

Pelo exercício constante das faculdades de observação e de raciocínio, pela meditação, o neófito subirá os degraus que conduzem ao

SABER.

A imitação simples dos processos naturais, a habilidade junta ao engenho, as luzes de uma longa experiência assegurar-lhe-ão o

PODER.

Realizador, terá ainda necessidade de paciência, constância, vontade inquebrantável. Audaz e resoluto, a certeza e a confiança nascidas de uma fé robusta permitir-lhe-ão tudo

OUSAR.

Finalmente, quando o sucesso tiver consagrado tantos anos laboriosos, quando os seus desejos se tiverem realizado, o Sábio, desprezando as vaidades do mundo, aproximar-se-á dos humildes, dos deserdados, de todos os que trabalham, sofrem lutam, desesperam e choram neste mundo. Discípulo anônimo e mudo da Natureza eterna, apóstolo da eterna Caridade, permanecerá fiel ao seu voto de silêncio.

Na Ciência, no Bem, o Adepto deve para sempre

CALAR-SE.

Esses três princípios, que denominaríamos respectivamente de Princípio da Organicidade, Princípio da Presença10 e Princípio da Prudência, norteariam todo o trabalho do alquimista e engendrariam outros princípios decorrentes.

O alquimista era, portanto, irmão da natureza, caridoso obreiro da terra, paciente devoto implorando pela graça divina. A nascente ciência moderna exigia um outro tipo de obreiro: misógino torturador da natureza que seria capaz de, como Bacon o queria, sadicamente extrair dela sob confissão seus mais íntimos segredos; sábio pedante incapaz de sujar os dedos com carvão ou vigiar uma fornalha por meses ou anos a fio, confiando afinal somente na experimentação objetivamente controlada, na razão e na matemática como instrumentos para conhecer o mundo. Finalmente, estabeleceram-se os filósofos naturais11, associados em academias mantidas pela nobreza e o resto da história já é por nós conhecido: a mecanização da filosofia natural por Galileu e Isaac Newton, e a adesão a essa concepção moderna de conhecimento pelos químicos, processo que começou com Robert Boyle e culminou com o Traité Elementaire de Chimie de Lavoisier (1789), obra que marca o nascimento da química como ciência. Abandonava-se, assim, uma postura contemplativa diante da natureza e acontecia a adesão a essa forma ativa de conhecimento, bem condizente com os ventos que sopravam na Europa desde a renascença.

Todo aquele conhecimento prático e empírico acumulado pela humanidade há milênios foi considerado, subitamente, como indigno de valor; como conhecimento suspeito, uma vez que somente merecia o referendum, o sinete que lhe validava, aquele conhecimento produzido em conformidade com métodos e procedimentos padronizados e incontestáveis12 cujos resultados não tardaram a aparecer na forma de um produto da ciência capaz de mudar o mundo e não reverenciá-lo como obra divina. Daí veio a tecnologia: o vapor, a eletricidade, o telégrafo sem fio, o cinema, o rádio, a televisão, os mísseis, reatores nucleares, computadores, projeto genoma, clones, transgênicos...

O que aconteceu com o saber popular? O que houve com aqueles conhecimentos de domínio público que, no dizer de Almeida (2002) “caracterizam estratégias de pensar o mundo fora da domesticação do pensamento científico, ao mesmo tempo que permitem sintetizar as semelhanças entre domínios expressamente dessemelhantes”?

2. CIÊNCIA E CULTURA POPULAR

Exemplos de saberes populares e práticas milenares de, por exemplo, manipulação dos materiais, podem ser encontrados entre todos os povos do planeta. Vejamos dois exemplos:

Quando os nativos que vivem próximo de Tanganica, na África, querem fundir o minério de ferro em seus fornos de argila reforçados com uma armadura externa de madeira, eles procedem da maneira mais simples possível, a mesma que utilizamos em nossos alto-fornos siderúrgicos. Nada diferencia sua técnica da nossa, salvo que eles empregam carvão de madeira como agente redutor do metal e nós utilizamos o carvão mineral. Os resultados que eles obtém são geralmente excelentes.

No entanto, esta simples operação de redução, um processo químico, jamais teria sucesso se aqueles homens, antes, não tivessem recitado orações e encantamentos e pedido ao feiticeiro da tribo que procurasse em seu cofre mágico de talismãs aquele que haveria de fazer com que o metal fluísse das grandes pedras negras.

Este procedimento explica perfeitamente a estreita associação entre técnica e magia que persiste entre os povos primitivos. Isso também acontecia, nos primeiros tempos da pré-história, em todas as culturas que passam hoje por civilizadas. O caráter sagrado e secreto da preparação dos metais é uma das características universais das culturas primitivas e numerosas lendas atestam a tradição destas crenças, que sobreviveram até o final da Idade Média.

O outro relato diz respeito à produção artesanal das cuias amazônicas, antigamente artefatos indispensáveis à vida doméstica mas hoje, dada à disponibilidade de utensílios metálicos e de plástico, reduzidos a objetos folclóricos.

Os povos da floresta Amazônica utilizam-se de cuias para tomar água ou alimentos líquidos. Essas cuias são feitas a partir da casca grossa dos frutos de uma árvore nativa (Crescentia cujete), globos que podem atingir o tamanho de uma melancia grande.

Os globos são cortados em dois hemisférios, limpos e secados ao sol. Enquanto isso está sendo feito, o artesão prepara um extrato aquoso do caule de uma planta chamada cumatê (árvore da família das melastomáceas cujas cascas são ricas em tanino), com o qual pintará a cuia, cobrindo-a com esse corante natural. Nesse trabalho de pintura ele dará vazão à sua arte, decorando as cuias com motivos variados. Após a pintura, as cuias serão colocadas sobre um recipiente contendo urina em decomposição (!!!), a cujos vapores elas ficarão expostas. Não entrarão em contato direto com a urina, mas apenas com as suas emanações.

O corante endurecerá e escurecerá, adquirindo as propriedades de uma laca negra e brilhante, que protegerá a cuia do apodrecimento e facilitará seu manuseio e higiene. Essas cuias podem ser vistas em toda a Amazônia, inclusive em Belém do Pará, nas tradicionais barracas de Tacacá que estão instaladas nas esquinas da cidade.

É curioso como esse processo de preparo das cuias teria igual sucesso se elas fosse expostas aos vapores do amoníaco, mas a tradição manda utilizar a urina até hoje. Os espíritos filosóficos podem meditar sobre as estranhas propriedades da matéria, porém a técnica continua naturalmente a seguir o seu caminho...

Relato mais assombroso diz respeito ao famoso aço de Damasco.

O aço fabricado na cidade síria de Damasco era famoso por sua têmpera. Inicialmente ele era fabricado aquecendo-se a lâmina a ser temperada até o rubro e depois espetando-a no corpo de um escravo corajoso e vigoroso, que era sacrificado na ocasião. Dessa forma, o escravo, por um processo mágico, transferia suas virtudes para a lâmina, que tornava-se de aço superior. A incrível capacidade de manipular materiais e de ser curioso levou à descoberta, por artesãos metalurgistas europeus, de que bastava mergulhar a espada incandescente em um tanque cheio de água com peles de animais que o efeito obtido era o mesmo. Quantos escravos foram poupados...

Hoje mergulha-se lâminas a serem temperadas em nitrogênio líquido e uma ciência sofisticada e especializada, a engenharia de materiais13, trata desse tema sem recorrer a espíritos ou força vital, mas valendo-se de cristalografia e de estudos sobre a aplicação de intensos choques térmicos sobre lâminas metálicas.

No sertão do Rio Grande do Norte Almeida (2002) relata a incrível capacidade de sentir o ambiente evidenciada pelas práticas de previsão do tempo adotadas pelos moradores do lugar. A autora destaca a experiência de seu Chico Lucas, agricultor e pescador da Lagoa do Piató em Assu, RN. Para ela, “todas as épocas têm seus pensadores e intelectuais; pessoas que se distinguem pela maneira de observar os fenômenos com mais atenção e criar métodos específicos para conhecê-los, decifrá-los e explicá-los.” Não estará aí a essência de uma ciência que, mais do que conhecimento hermético e acessível a poucos14 destina-se a ser sabedoria de vida; para uma vida decente ainda que destituída de certos valores preconizados pela sociedade capitalista, como o ter, o consumir e o individualizar-se progressivamente?

Esse saber, portanto, ficou à margem do progresso dito “científico”, pois não conta com o referendum da academia, e portanto não ascende à categoria de impessoal, frutífero, preciso, generalizador, etc.., permanecendo do âmbito do senso comum.

Ora, Santos (1997) afirma que “sabemos hoje que a ciência moderna nos ensina pouco sobre a nossa maneira de estar no mundo e que esse pouco, por mais que se amplie, será sempre exíguo porque a exigüidade está inscrita na forma de conhecimento que ele constitui.” Para essa percepção moderna de ciência, o cientista é um ignorante especializado e o cidadão comum um ignorante generalizado15. Ora, na pós-modernidade já não faz sentido falar nessa controvérsia. “A mais importante de todas [as formas de conhecimento] é o conhecimento de senso comum, o conhecimento vulgar e prático com que no quotidiano orientamos as nossas ações e damos sentido à nossa vida.” (Santos, 1997).

Deixado à própria sorte, num universo cheio de mistérios, assombrações, espíritos e forças misteriosas ou francamente inexplicáveis16 o senso comum é conservador e pode legitimar prepotências. Porém, segundo Santos (1997), interpenetrado pelo conhecimento científico pode estar na origem de uma nova racionalidade, uma racionalidade feita de várias e interconexas racionalidades... Para tanto, é preciso romper com a concepção de que a ciência oficial está num patamar superior àquele ocupado pelo conhecimento de senso comum. Esta é uma das revelações mais assombrosas de que se tem notícia nos últimos anos: na ciência pós-moderna o conhecimento científico somente se realiza enquanto tal na medida em que se converte em senso-comum.

Santos (1997) prossegue afirmando que

“A ciência moderna ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em auto-conhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida. É esta que assinala os marcos da prudência à nossa aventura científica. A prudência é a insegurança assumida e controlada. Tal como Descartes, no limiar da ciência moderna, exerceu a dúvida em vez de a sofrer, nós, no limiar da ciência pós-moderna, devemos exercer a insegurança em vez de a sofrer.

No momento em que seu Chico Lucas faz o experimento do sal no telhado17, ele está implementando uma prática tradicional, impregnada de senso-comum e de um conhecimento prático para a sobrevivência no sertão, certamente muito mais antiga do que as previsões científicas contemporâneas baseadas na moderna tecnologia.

Almeida (2002) considera que “a construção de saberes tradicionais no tocante à leitura da natureza, para daí retirar ensinamentos para a vida, tem raízes milenares. Se a história dessas técnicas de observação é marcada por descontinuidades e perdas, é importante lembrar também que grande parte da história da ciência e da técnica se beneficiou desse diálogo que pode ser fecundo até os dias de hoje (grifo nosso). A fertilidade desse diálogo requer entretanto que não se reduza um saber ao outro, que não se valide um por critérios estipulados pelo outro, uma vez que se trata de estratégias distintas de pensar o mundo.” Tal incomensurabilidade distingue, mas unifica; separa mas reúne; estabelece, afinal, o que Santos (1997) afirma como a necessidade de percebermos essas diferentes formas de conhecimento como no mesmo nível.

3. CIÊNCIA E PÓS-MODERNIDADE

O tempo que vivemos, que poderíamos denominar nebulosamente de “pós-moderno”, embora sem uma absoluta clareza a respeito deste termo, mas confiantes de que ele sinaliza para a derrocada dos velhos modelos de ciência e a ascensão de novos modelos, aponta para importantes rupturas: crise e oportunidade18. Quem sabe seja o momento para revermos nossas concepções e ações na formação de professores... Quem sabe até consigamos que saberes e fazeres acabem por dialogar no “pós-moderno”

O conceito de pós-modernidade na ciência surgiu em conseqüência da crise do modelo de racionalidade científica que, no entendimento de Santos (1997), é profunda e irreversível; que configura a atualidade como um período de revolução científica (conforme Kuhn); e cujo novo paradigma e conseqüente período de ciência normal (e de novas oportunidades!) permanece uma incógnita. Ainda de acordo com Santos (1997) a ciência pós-moderna deverá “sensocomunizar-se”, dialogar com as culturas e promover uma aproximação entre ciências naturais e humanidades. Será a redescoberta da cultura no seu conceito antropológico? Finalmente a ciência reconhecer-se-á como parte da cultura humana, juntamente com a arte, a religião e a filosofia, estando no mesmo nível destas? Na pós-modernidade a ciência finalmente reconhecerá a sabedoria do Sileno, que na Grécia antiga proclamava ser a vida dor, sofrimento e morte, e que somente a arte (dionisíaca ou apolínea, não importa19) permitiria suportar a vida, para o que a ciência racional-cartesiana já não bastaria?

Segundo Usher e Edwards (citados por Veiga-Neto, 1998) “talvez tudo o que possamos dizer com algum grau de segurança é o que o pós-moderno não é.” Essa negação lembra-nos o que Walter Benjamin (1987) fala sobre a destruição progressiva da aura da obra de arte e sobre a obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica: Será a ciência pós-moderna a perda da aura na ciência, como o foi o teatro épico de Brecht, a perda da aura no teatro?

E o que dizer dos educadores químicos neste novo (e complexo) tempo?

Parece-nos, em tese, que o educador químico da pós-modernidade será um detentor de “saberes nômades que migram de uma disciplina para outra, de uma cultura para outra, que percorrem países, grupos, práticas, tradições, e que não são capturados pelas cartografias consagradas que têm ordenado a produção do pensamento humano(...)” (Costa, 2000). Parece-nos que o educador químico terá formação decorrente da convergência de várias disciplinas e será, inclusive, um etnógrafo da sua própria prática na formação inicial e continuada, com todos os desdobramentos e conseqüências que isso terá sobre essa prática permanentemente realimentada pela pesquisa.

Por sua vez, o paradigma emergente, a ciência que deverá dar suporte a essa formação terá, no entender de Santos (1997) o seguinte perfil:

3.1. Deverá ser conhecimento científico-natural e científico-social. A distinção dicotômica entre ciências naturais e ciências sociais deixará de fazer sentido, e isso abrirá enormes possibilidades ao educador em ciências, justamente este que, educado na “cultura do Bacharel” (Schnetzler, 2000) sente grandes dificuldades para posicionar-se enquanto detentor dos mencionados “saberes nômades”.

3.2. Será conhecimento local e total 20. Ao contrário da especialização, marca da ciência moderna, na pós-modernidade as restrições ao conhecimento, ao método, ao objeto de estudo e ao que conhece (o ignorante especializado) serão abandonadas. O conhecimento é construído ao redor de temas que, em dado momento, compõem projetos de vida de comunidade inteiras, no sentido de produzir uma ciência cheia de significado. Como contar uma história amazônica não eurocêntrica? É possível elaborar programas de computador acessíveis a estudantes do terceiro mundo?21 Como combater a mortalidade infantil e a desnutrição?22

Esse conhecimento total e local também é plural, na medida em que admite a convivência de métodos, estilos, práticas e vivências científicas diferentes e não mutuamente exclusivas. Ao romper com as disciplinas e individualizar o processo de produção científica, já que cada cientista verá sua história de vida interferir em sua prática, a nova ciência aponta para o autoconhecimento.

3.3. Será conhecimento e auto-conhecimento. Sem dúvida, uma nova gnose está em construção. Inúmeros componentes subjetivos estão a postos para retomar seu lugar no universo aberto pela nova ciência, inclusive Deus, no entender de Santos (1997) “mais um foragido da ciência”. Será auto-conhecimento na medida em que irá explicitar todos os componentes culturais do estudioso23, já que a ciência moderna não é a única explicação para a realidade e, ela própria, é produto de escolhas, escolhas que explicitam, por sua vez, a “autobiografia da ciência”. No paradigma emergente, o caráter autobiográfico e auto-referenciável (aquilo que a constituiria, talvez, uma “ciência amazônida” e não uma ciência amazônica) da ciência é plenamente assumido. Para Santos (1997):

Hoje sabemos ou suspeitamos que as nossas trajetórias de vida pessoais e coletivas (enquanto comunidades científicas) e os valores, as crenças e os prejuízos que transportam são a prova íntima do nosso conhecimento, sem o qual as nossas investigações laboratoriais ou de arquivo, os nossos cálculos ou os nossos trabalhos de campo constituiriam um emaranhado de diligências absurdas sem fio nem pavio. No entanto, este saber, suspeitado ou insuspeitado, corre hoje subterraneamente, clandestinamente, nos não-ditos dos nossos trabalhos científicos.”

As palavras de Santos (1997) lembram Chassot (1995), quando este fala da inutilidade do ensino de química praticado na maioria das escolas e da assepsia de uma educação que ignora solenemente o saber que circula fora dos livros didáticos comerciais e das salas de aula.

3.4. Constituir-se-á em senso-comum. Pelas razões já mencionadas anteriormente, na medida em que ressignificará o saber popular que bem resolve os problemas da vida real e que, ignorado pelo sinete da academia, permanece no limbo da cultura científica. Bastará a este saber impregnar a ciência e por esta deixar-se impregnar para, como visto, constituir a base de uma nova racionalidade. Humana; sobretudo humana.

No quadro delineado pela nova ciência, que diálogos poderíamos estabelecer entre química e saber tradicional? Seria possível “alquimiar” a química?

4. ALQUIMIANDO O ENSINO DE QUÍMICA

Mas, que ensino é esse que deve ser “alquimiado”? Por que “alquimiar” o ensino de química? Parafraseando Rousseau, citado por Santos (1997), há alguma razão de peso para substituirmos um ensino que vem se revelando “adequado” às aspirações de estudantes de química (na medida em que lhes oportuniza a aprovação anos após ano e, ao final da educação básica, o ingresso em um curso superior) e de professores de química24, por outro capaz de sacudir as bases de uma metodologia consagrada pelo seu uso?

Certamente que, assim como a maioria nem sempre está com a razão, da mesma forma a prática exaustiva de certos algoritmos pode estar reproduzindo erros milenares. Chassot (1995) afirma que “os países emergentes [aqueles colonizados pelos europeus] buscam, num fantástico copismo25, a ciência dos países ricos, em detrimento dos saberes locais, até para, supostamente, validar a ascenção das minorias desprestigiadas, pensando que se “aprenderem” a ciência (exótica e esotérica) dos dominadores deixarão de ser dominados”. Vale destacar que essa afirmação não propõe o confinamento do conhecimento em “guetos” dominados por radicais xenófobos.

Chassot (1993) destaca algumas características do ensino de química praticado nos dias de hoje. Para o autor, este é livresco, na medida em que prende-se a textos; verborrágico, ao valorizar o blá-blá-blá em círculos; inútil, principalmente porque a maioria dos estudantes jamais descobre o que fazer com aquela montanha de informações desconexas; esotérico, por somente acessível aos “iniciados”26; confuso, ao não impedir que o aluno, por exemplo, tome os modelos ensinados como a própria realidade; alienado e alienante, porque desconectado da realidade no tempo e no espaço. Diante desse quadro, torna-se evidente que, se queremos um “ciência prudente para uma vida decente” (Santos !997), devemos alquimiar a química e aproximá-la do saber popular.

Mas como?

Parece-nos que esse “alquimiar” deverá processar-se em duas frentes: nas práticas escolares e na formação dos (novos) professores de química.

Retomando os princípios alquímicos destacados no início deste texto (Princípio da Organicidade, Princípio da Presença e Princípio da Prudência) as práticas docentes dos professores de química devem evidenciar a adesão a esses princípios. Praticar uma educação química baseada na organicidade do mundo subtende a compreensão da complexidade dos fenômenos e do conhecimento químico e de sua interligação no tempo e no espaço. Isso permite reconhecer que, por exemplo, a abordagem do assunto pH em ácidos e bases remete a conceitos de equilíbrio químico27, ambos com sua filogênese em momentos e situações distintas. E esses, por sua vez, permitem infinitas sinapses com o mundo real, na medida em que se prestam à discussão de fenômenos como poluição atmosférica, a composição de produtos de higiene e limpeza, etc. Tudo contém o UM e o UM está em tudo, diria um alquimista. Tudo tem aquele um e aquele um está em tudo, diria um paraense...

Falar em “Presença” na educação química evidencia a importância que nesta deve ser dada ao papel do estudante enquanto participante na construção dos saberes. Cada vez mais vem sendo dada importância ao papel do observador (Capra, 1988) nos fenômenos. Esse papel, em educação química, vai além do saber científico e desdobra-se por relações sociais. Sabe-se (Moreira, 1982) que os referenciais da vida do aluno constituem importante ponto de “ancoragem” de novos conhecimentos e esses pontos estão definitivamente relacionados à experiência de vida, individual e social, de cada um. Portanto, pode-se deduzir que a química ensinada não é a mesma química aprendida por cada um dos alunos28, daí que não faz sentido ignorar essa “presença” da experiência pessoal de cada indivíduo. Deve-se, sim, aproveitá-la para que as conexões individuais sejam estabelecidas.

Falar, finalmente, em “Prudência” evidencia a necessária transformação do conhecimento químico ensinado em uma forma de sabedoria de vida que contribua para a dignidade humana. O documento abaixo, diz-se, foi encontrado em um campo de concentração nazista:

“Prezado professor

Meus olhos viram o que nenhum homem deveria ver.

Câmaras de gás construídas por engenheiros formados.

Crianças envenenadas por médicos diplomados.

Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas.

Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades.

Assim, tenho minhas suspeitas sobre a Educação.

Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos.

Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis.

Ler, escrever e aritmética só são importantes para fazer nossas crianças mais humanas.

E Saint-Exupéry29, ao falar de sua experiência no correio aéreo para a América do Sul nos anos 20 do século XX, escreveu:

“Mais coisa sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramentas. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.

Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de vôo, na Argentina - uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.

Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos...

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.”

(Terra dos Homens)

E o mesmo autor termina o livro com a seguinte frase: “Só o Espírito soprando sobre a argila pode criar o Homem.”

Será essa Prudência, portanto, o princípio que dará significado humano a todas as nossas elucubrações, que de outra forma seriam estéreis e inúteis.

Na formação de professores de química esses princípios manifestam-se na medida em que a “cultura do bacharel” (Schnetzler, 2000) seja explicitada e superada, abrindo-se espaço para que o professor em educação se reconheça enquanto um educador em formação. Esta, por sua vez, será convergência dos “saberes nômades” que estarão por aí, migrando entre as diversas disciplinas, práticas, culturas, religiões, artes, filosofias...

O conhecimento milenar para fazer cuias amazônicas estará em sala de aula, as pedras de sal no telhado, a história do aço de Damasco, todos importantes produtos da cultura humana, como a ciência; esta mesma mais um desses produtos, agora destituída da pretensão arrogante de ser superior às demais formas de compreender o mundo e lançar  pontes de luz sobre a escuridão em busca de outras pessoas. Nesse contexto, aulas de química serão exercícios de autoconhecimento e sensocomunização, ferramentas para felicidade e construção de um “ciência prudente para uma vida decente”.

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Maria da Conceição. Previsões do tempo: ecossistema e tradição. Galante, no 14, vol. 02. Natal, Fundação Hélio Galvão, 2002.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. 2a edição. São Paulo, Brasiliense, 1987. Vol.1

BERGIER, Jacques & PAWELS, Louis. O despertar dos mágicos. São Paulo, DIFEL, 1980.

CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo Cultrix, 1988.

CHASSOT, Attico. Catalisando transformações na educação. Ijuí, Ed. UNIJUÍ, 1993.

CHASSOT, Attico. Para quem é útil o ensino. Canoas, Ed. ULBRA, 1995.

COSTA, Marisa Vorraber. Estudos culturais em educação. Porto Alegre, Editora da Universidade/UFRGS, 2000.

FULCANELLI. O mistério das catedrais. Lisboa, Edições 70, s/d.

GOLDFARB, Ana Maria Alfonso. Da alquimia à química. São Paulo, Nova Stella/EDUSP, 1987.

LASZLO, Pierre. O que é a Alquimia? Lisboa, Terramar, 1997.

MACHADO, Jorge. O que é Alquimia? São Paulo, Brasiliense, 1991. Coleção Primeiros Passos.

MOREIRA, Marco e MASINI, Elcie. Aprendizagem Significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo, Moraes, 1982.

SAINT-EXIPÉRY, Antoine. Terra dos Homens. Rio de Janeiro, José Olympio, 1982.

SANTOS, BOAVENTURA DE SOUSA. Um discurso sobre as ciências. Lisboa, Afrontamento, 1997. 9a edição.

SCHNETZLER, Roseli P. O professor de ciências: problemas e tendências de sua formação. In _____ & ARAGÃO, Rosália. Ensino de ciências: fundamentos e abordagens. Campinas, R. Vieira Gráfica e Editora Ltda, 2000.

TRÊS INICIADOS. O CAIBALION: estudo da filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia. Sâo Paulo, Pensamento, 2002

VEIGA-NETTO, Alfredo. Ciência e pós-modernidade. Episteme, Porto Alegre, v.3, n.5, p.143-156.


NOTAS

1 Um deus mitológico ou um personagem histórico? Afirma-se que a grande pirâmide de Gizé lhe serviu de túmulo...

2 Daí este documento ser conhecido como A TÁBUA DA ESMERALDA.

3 Num processo de destilação, refluxo ou recristalização acontece isso, o material é volatilizado, condensado e, quando isso ocorre, obtém-se um material mais puro do que o que se estava inicialmente a purificar.

4 Jacques Bergier, químico e escritor francês que criou polêmica com a publicação, junto com Louis Pauwels, de O DESPERTAR DOS MÁGICOS, introdução ao chamado (por eles) realismo fantástico, abordagem heterodoxa da ciência que considera a vanguarda da ciência e busca abarcar fenômenos ainda inexplicáveis, além de ocupar-se de temas como inteligência extraterrestre, fenômenos paranormais, espíritos e Alquimia. É deles a frase: os espíritos são como pára-quedas; só funcionam quando abertos...

5 Segundo o CAIBALION esse é um dos sete princípios fundamentais em que se baseia toda a filosofia hermética. Chama-se PRINCÍPIO DA CORRESPONDÊNCIA e essa correspondência deve ser entendida como analogia, isto é, uma coisa é análoga e correspondente a outra quando tem função correspondente e análoga. Segundo os hermetistas, por exemplo, a boca é semelhante (mas não igual) ao ventre porque, sendo a entrada do ventre, tem uma função análoga, porém mais elevada do que ele. (CAIBALION, pag 22.)

6 Espírito é a denominação clássica na alquimia para os componentes voláteis de algumas misturas. O álcool etílico era conhecido como “espírito de vinho” e o ácido clorídrico, obtido a partir do cloreto de sódio, era o “espírito de sal marinho”.

7 Bergier (1980), na sua concepção real-fantástica admite que talvez o alquimista estivesse tentando provocar na estrutura da matéria algum tipo de “fadiga”, capaz de modificar, via processos químicos, sua composição subatômica, libertando partículas e forças que a ciência moderna somente consegue libertar com o uso de brutais aportes de energia. Diz o autor que pode-se abrir um cofre de duas maneiras: conhecendo-se o segredo, como os alquimistas, ou arrombando-o, como o fazem os físicos...

8 Fulcanelli é pseudônimo de um misterioso personagem que perambulou pela Europa no pós-guerra e publicou o livro O MISTÉRIO DAS CATEDRAIS (Lisboa, Edições 70, sd.), que trata da interpretação, à luz do conhecimento alquímico, do simbolismo hermético das catedrais góticas, como a de notre-dame de Paris.

9 Dizem os alquimistas que o saber é para o uso de todos mas não para o conhecimento de todos, e recomendam prudência a todos os que, por graça divina, forem agraciados com o grande segredo. Um papiro egípcio (o papiro Harris) proclamava: “Fechem as bocas! Cerrem as bocas!” e um alquimista chinês, há 1000 anos, ensinava: “Seria um perigo terrível desvendar aos soldados os segredos da tua arte. Toma cuidado! Que nem um inseto haja na sala em que trabalhas!” (Bergier, 1980)

10 Certos segredos da alquimia jamais podem ser descobertos pelo estudo livresco ou por dedução. Exigem a revelação de mestre a discípulo. Desse modo, a alquimia é inciática, além de tradicional e secreta.

11 Assim eram denominados os primeiros cientistas, uma vez que o que hoje chamamos de ciência era a filosofia natural do renascimento.

12 O chamado Método Científico, pilastra mater da ciência moderna.

13 Quem diria que engenheiros de materiais revestiriam o casco do ônibus espacial americano com ladrilhos de cerâmica capazes de resistir à altíssima temperatura da reentrada na atmosfera terrestre? Ou que criariam tesouras com lâminas de cerâmica que jamais perdem o fio? Ou criariam os supercondutores e, hoje, perseguem um supercondutor que funcione à temperatura ambiente?

14 E retomamos aqui as questões milenares propostas por Rousseau em 1750 (citado por Santos, 1997): “Há alguma razão de peso para substituirmos o conhecimento vulgar que temos da natureza e da vida e que partilhamos com os homens e as mulheres da nossa sociedade pelo conhecimento científico produzido por poucos e inacessível à maioria?”

15 Tem aquela famosa piada: Um caboclo lá em Abaeté atravessava um rio em sua canoa levando um professor doutor da universidade. O doutor gabava-se de seu estudo, seus títulos, de como era sábio e poderoso, porque torna e deixa. No meio do rio a canoa começa a afundar. Aí o caboclo vir-se para o professor doutor e fala: - Seu dotô eu num sei nada do que o sinhô diz que sabe, mas eu sei anadá e era melhó que o sinhô também assoubesse...

16 As mentes que vivem fechadas no olimpo da academia refestelando-se nas nuvens do saber diáfano e alimentando-se da ambrósia da sabedoria estéril deveriam descer ao mundo real, onde as coisas realmente acontecem. Na vida real, o mundo é inexplicável para a maioria das pessoas, que ainda assim passam muito bem-obrigado, sem o conhecimento científico validado pelo sinete oficial dos olimpianos...

17 Esse experimento descrito por Almeida (2002) é o seguinte: A experiência é feita na véspera do dia de Santa Luzia. Enroladas uma a uma em pedaços de papel se coloca as pedras de sal em cima do telhado da casa. Quando é de manhã, antes do sol sair, se tira aquelas pedras. Se as pedras derreterem e emendarem umas com as outras quer dizer que “tá partindo cacimba grande” - que chove todos os seis meses de inverno. Mas se derrete uma, depois de um mês outra, aí quer dizer que se considera um inverno instável.

18 A palavra crise em chinês (isto é, o termo “wei-ji” que a representa) é composta dos caracteres “perigo” e “oportunidade” (CAPRA, 1988: p.24)

19 Sim, não importa se apolínea (a arte da beleza, da justa medida e da prudência, cuja perfeição foi atingida com a escultura na Grécia antiga) ou dionisíaca (a arte do excesso, do carnaval) mas arte sem dúvida, que conecta o racional ao belo, ao espetáculo, à emoção, à vida real com suas questões ainda sem resposta. A esse respeito, ler AS CRÔNICAS MARCIANAS de Ray Bradbury (Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1983), um belíssimo e nostálgico encontro entre poesia e ciência.

20 Isso lembra o escritor russo: “Fale de sua aldeia, mas fale de forma universal...”

21 O sistema LINUX é uma tentativa de criar-se um sistema operacional livre, de baixo custo, com qualidade, capaz de representar alternativa viável aos (caríssimos) softwares “by Microsoft”. Milhares de usuários no mundo já o adotaram, por razões ideológicas ou financeiras.

22 A Pastoral da Criança pode ser um exemplo nesse sentido.

23 Parece melhor evitar a palavra “cientista” na pós-modernidade, substituindo-a por estudioso, estudante ou (como diriam os alquimistas) Adepto, amoroso da ciência...

24 Aqueles conformados, evidentemente, como escreveu Saint-Exupéry: “Velho burocrata, meu companheiro aqui presente, ninguém nunca fez com que te evadisses, e não és responsável por isso. Construíste tua paz tapando com cimento, como fazem as térmitas, todas as saídas para a luz. Ficaste enroscado em tua segurança burguesa, em tuas rotinas, nos ritos sufocantes de tua vida provinciana; ergueste essa humilde proteção contra os ventos, as marés e as estrelas. Não queres te inquietar com os grande problemas e fizeste um grande esforço para esquecer a tua condição de homem. Não és o habitante de um planeta errante e não lanças perguntas sem solução: és um pequeno-burguês de Tolouse. Ninguém te sacudiu pelos ombros quando ainda era tempo. Agora a argila de que és feito já secou, e endureceu, e nada mais poderá despertar em ti o músico adormecido, ou o poeta, ou o astrônomo que talvez te habitassem. Não me queixo mais das lufadas de chuva. A magia do ofício abre para mim um mundo em que enfrentarei, dentro de duas horas, dragões negros e cumes coroados por uma cabeleira de relâmpagos azuis. Nesse mundo, quando vier a noite, livre, lerei meu caminho nos astros.” (TERRA DOS HOMENS, pag 13.)

25 E diríamos, também, numa nostalgia da metrópole; saudade inconfessa da suavidade dos salões de Paris, Londres ou Lisboa, já que a selva é feroz...

26 Nada contra a necessidade dessa iniciação, mas ela é imposta. Seria recomendada apenas àqueles que desejassem estudar química como projeto de vida, mas a maioria dos estudantes jamais será profissional da química... Isso não exclui, por outro lado, a necessária alfabetização científica, para todos os cidadãos.

27 Este último geralmente abordado em físico-química enquanto que o primeiro geralmente consta dos programas de química geral e inorgânica.

28 Isso é assustador. Significa dizer que o conceito químico que estou ensinando, e que julgo compreender perfeitamente e que seria compreensível por todos da mesma forma, será, na realidade, compreendido por cada um dos alunos de forma absolutamente pessoal. Isso destrói qualquer pretensão de “ensinar” algo a alguém, de acordo com as concepções tradicionais da racionalidade técnica.

29 Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), aviador francês, poeta do céu, seus livros falam de seus vôos mas também de suas experiências pessoais no contato com essa importante “ferramenta para unir pessoas”. Sua obra mais conhecida é O PEQUENO PRÍNCIPE.

publicado por jondisonrodrigues às 14:29

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