Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

O ADVENTO DA CIÊNCIA MODERNA: CONHECIMENTOS VÁLIDOS PARA UMA NOVA ORDEM

Sandra Cristina Santiago Freitas[1]

UFPA/2003

 

A preocupação em compreender a natureza ocorre desde os primórdios da humanidade. Sociedades de épocas distintas elaboraram e adotaram determinadas idéias sobre a natureza, por isso, o conceito de natureza não é natural, mas inventado e instituído pelos seres humanos. A partir da idéia de natureza, os seres humanos estabelecem sua existência, constituída por práticas sociais, produtivas e simbólicas.

Em nossa sociedade, a natureza foi definida em oposição à cultura. O ser humano entendido como ser de razão e possuidor de cultura passou a se perceber como ser superior, capaz de controlar e dominar a natureza. Este domínio implica no controle da inconstância e do imprevisível, ou melhor, significa para o ser humano dominar o natural em si próprio.

Segundo ANDERY e outras autoras (1988:16-17), produzir ciência é uma tentativa de entender e explicar racionalmente a natureza, buscando leis gerais que regem os fenômenos e permitam uma atuação humana. Pelo caráter histórico da ciência, o próprio significado para entender e explicar o racional altera-se. Em determinado momento histórico podem existir diferentes interesses e necessidades, que conduzem a determinadas concepções de homem, de natureza, de conhecimento e desta forma, distintos métodos para conhecer.

Cabem aqui, as questões e reflexões filosóficas de CHAUÍ (1995) sobre a ciência e o sujeito do olhar:

 

 

‘quem é o sujeito do olhar?’, modernos e idealistas responderão, sem titubear: o intelecto, o entendimento, a consciência como poder constituinte do objeto enquanto significação. O que vê o olho intelectual? Idéias, conceitos, essências. Como os vê? Como universalidades existentes desde todo o sempre e em parte alguma do visível, contrapostas à individualidade empírica dos entes, existentes em algum ponto do tempo e do espaço. Que é o olho intelectual? Puro sujeito da observação, puro espectador absoluto que supõe ou que, no idealismo, põe uma multiplicidade plana onde universalidades e individualidades se distribuem, completamente determinadas, cada uma delas formando duas ordens que se cortam transversalmente, a ordem das essências sem local e sem data e a ordem dos fatos datados e localizados.

 

 

A ciência está ligada à intencionalidade de ver e de conhecer, mas fazer ciência não é uma rotina igual, existe no fazer científico várias possibilidades. Fazendo uma analogia ao caso relatado por SACRS (1995) da experiência de Virgil, um cego que experimentou a aventura de enxergar, podemos dizer que dentre as várias formas de conhecer nem sempre o caminho da excessiva luz permite saber, ser feliz e viver. Para ver e conhecer é preciso fazer opções de foco, sombras, espaço, distância; exercitar e conectar os sentidos para significar o que pretendemos compreender. Fazer ciência é um exercício de aproximação da realidade, a partir de diversos caminhos: os métodos.

A primeira tentativa de racionalizar as explicações sobre mundo em contraposição às explicações míticas, ocorreu na Grécia Antiga, no período entre o século VII ao século I a. C. Segundo CHAVES (1998), nesse período há a “polarização de critérios de verdade, ora centrados na razão individual, como o modelo socrático; ora na sociedade, na perspectiva sofismática, ou ainda, na razão e na percepção de Platão e Aristóteles, respectivamente”.

Neste ensaio, a partir de um breve estudo sobre o nascimento da ciência moderna, considerações sobre métodos válidos para o conhecimento e a utilidade do saber científico, pretendemos compreender aspectos do pensamento moderno ocidental, tendo como referência Galileu Galilei, Franscis Bacon, René Descartes e Auguste Comte.

O nascimento da Ciência Moderna

A ciência moderna surgiu no século XVII, na Europa, com a Revolução Galileana, de forma imperfeita e incompleta contra os conceitos e formas anteriores de pensamento oficial, construindo lenta e progressivamente seus instrumentos teórico e metodológicos para investigação real do mundo. Foi forjada diante da crença na unidade do pensamento humano, a partir, principalmente, das formas mais elaboradas do pensamento filosófico, religioso e científico. (JAPIASSU, 1982:24; ANDERY et al., 1988:172)

O cenário em que nasceu a ciência moderna é o da transição do feudalismo para o capitalismo, marcado por profundas transformações, dentre as quais destacamos: a substituição da terra pelo dinheiro; a fragmentação da sociedade feudal, a formação dos Estados nacionais, a centralização do poder pela monarquia absoluta, o fortalecimento da burguesia, o desenvolvimento da indústria moderna, o renascimento do comércio, a abertura do comércio para o mundo, a exploração colonial, a expulsão de camponeses ocasionada pela especulação fundiária, as alterações no sistema produtivo, a divisão do trabalho, o crescimento das cidades, os movimentos da Reforma protestante e da Contra-reforma católica, o Renascimento cultural, a destruição da visão de mundo do feudalismo, a preocupação com o desenvolvimento técnico. Enfim, a ciência moderna surge com o capitalismo e a ascensão da burguesia. (ANDERY et al., 1988:157-174)

Na época do renascimento as crenças na magia e na feitiçaria proliferaram muito mais do que na Idade Média. A mentalidade cultivada na credulidade cega e irracional, motivaram leituras freqüentes de textos ligados a demonologia e a magia. Do ponto de vista filosófico e científico o grande inimigo da Renascença foi a síntese aristotélica e o seu grande mérito a destruição desta síntese. (JAPIASSU, 1982)

Os filósofos Francis Bacon e René Descartes, influenciados pela riqueza e diversidade de idéias do Renascimento acerca da relação homem-natureza-conhecimento, são portadores de percepções distintas sobre esta relação, porém em conjunto com Galileu, podem ser tomados como instituidores das bases metodológicas da ciência moderna.

O Renascimento funda o início da idade moderna, com a valorização do homem e de suas produções, em oposição ao pensamento predominante na idade média, que embasado nas proposições de Aristóteles, contribuíam para o domínio do teocentrismo. Mesmo nascendo à margem do espírito renascentista a ciência moderna foi capaz de demolir a síntese aristotélica, construindo uma base sólida e necessária para instauração do espírito científico. Galileu introduziu um corte epistemológico na história do pensamento ocidental, rompendo com um sistema de representação do mundo antigo e medieval. JAPIASSU (1982:29-30), aponta Galileu como um antimágico por excelência, que se mostra interessado pela idéia da Física e da Matemática, procurando reduzir o real ao geométrico. É o primeiro espírito moderno, que traz o ideal científico e o código de procedimentos do conhecimento, primando pelo rigor do método. A revolução Galileana desconsidera de suas explicações as causas formais e finais, deixando apenas as causas materiais e eficientes. Divide o mundo em dois, o domínio físico desligado do metafísico. O mundo passa a ter duas verdades para explicá-lo: a verdade tradicional e a verdade Galileana. A verdade tradicional defende a imagem de Universo, garantida por Deus na Bíblia e reforçada por Aristóteles nos ensinos universitários. A verdade Galileana defende um sistema abstrato, contrários aos costumes intelectuais, reduzindo o mundo a um esquema geométrico, sem relação com o homem e tão pouco com a história da salvação.

Considerado o 1º teórico do método experimental, sua grande contribuição está no campo da metodologia, na qual acreditava que o fim da investigação apontava para o conhecimento da Lei. Para Galileu o sentido e a razão embora distintos eram indispensáveis para o processo formativo da ciência. Achava possível com os sentidos, captar os fatos aparentes e com a razão, ordenar os dados e demonstrar as hipóteses. O procedimento metodológico executado por Galileu é o Hipotético-dedutivo, no qual ele aplicava a Matemática para observar a natureza. Seu método consistia em observação, análise, hipótese, indução, dedução e elaboração de Lei. Assim, Galileu criou um problema de método, a ser desvendado por Bacon e Descartes, uma vez que a unidade indução-dedução, trazia graves conseqüências para a validade objetiva do conhecer, pois apontava que nem todas as coisas podiam ser quantificadas. (JAPIASSU, 1982)

Bacon, contemporâneo de Galileu, em sua obra Novum Organun (1973), preocupado em buscar a verdade das coisas, critica Aristóteles, considerando que em sua perspectiva o silogismo[2] e o processo de abstração não podem conduzir a um conhecimento completo do universo, opta pelo emprego da indução completa por simples enumeração.

Acreditando que o conhecimento religioso não possibilita a compreensão da natureza das coisas que crê e a razão do conhecimento filosófico, não dá condições de distinguir o verdadeiro do falso, Bacon assinala ser essencial para o verdadeiro conhecimento a observação e a experimentação dos fenômenos. O empirismo de Bacon, leva-o a acreditar que o homem tem de entrar em contato com a natureza se deseja conhecê-la. Desta forma, opõe-se a qualquer idéia predeterminada de natureza e defende que o caminho da produção do conhecimento válido é o empírico, experimental, não especulativo.

O caminho para o verdadeiro conhecimento, segundo Bacon (Novum Organun: 1973) deve partir de fases sistemáticas, a saber: experimentação, formulação de hipóteses, repetição, teste das hipóteses, formulação de generalizações e leis. Segundo LAHR (op. Cit. LAKATOS, 1982), as regras sugeridas por Bacon para experimentação podem ser sintetizadas da seguinte forma: alargar, variar, inverter e recorrer aos casos da experiências.

O tipo de experimentação proposto por Bacon pode ser denominado por coincidências constantes, pois parte da evidência de que o aparecimento de um fenômeno ocorrerá sempre e nunca se produzirá ausência. Por isto, o antecedente causal de um fenômeno está a ele unido por sucessão, constante e invariável.[3] Discernir o antecedente que está unido ao fenômeno é determinar experimentalmente sua causa ou lei. (LAKATOS, 1982)

Considera também, que os procedimentos anteriores e de sua época vem falhando por algumas tendências perniciosas adotadas, a saber são quatro os ídolos que acarretam equívocos:

-          ídolos da tribo são relativos as limitações dos sentidos e do intelecto humano, possivelmente corrigível pela experimentação;

-          ídolos da caverna, correspondem as prenoções originárias das leituras, hábitos e história de vida do investigador; e

-          ídolos do foro relativos as falhas de comunicação e linguagem;

-          ídolos do teatro representam as distorções no pensamento, oriundas da aceitação de falsas teorias e sistemas filosóficos. (BACON, 1973: I afor. 39-43; ANDERY et al. 1988: 192-194)

 

BACON (1973), defendeu a aplicação da ciência à indústria, a serviço do progresso. Percebendo a importância do conhecimento nesses novos tempos, afirmou inúmeras vezes que saber é poder e dedicou grande parte do seu tempo a refletir sobre o conhecimento e a melhor forma de colocá-lo a serviço do homem. Contudo, segundo ANDERY e outras autoras (1988) ele não propõe que cada conhecimento particular é de utilidade imediata, mas defende que o conjunto do saber deve estar a à serviço da necessidade humana.

Desistindo em buscar a verdade nos livros Descartes passou a buscar a verdade em si. Acreditando possível revolucionar o próprio pensamento sem reformular a sociedade e o ensino, defendeu a liberdade do pensamento para a obtenção do progresso da investigação científica.

Contrário ao processos indutivo, DESCARTES (1979) propõe o método dedutivo. Partindo do princípio de que os sentidos são enganosos, propõe que  o caminho para as certezas é através da razão, princípio absoluto do conhecimento humano. Para Descartes, a pesar da razão ser inerente a todo homem, há um modos diferentes de cada um conduzi-la. Assim, postula quatro regras para se chegar ao método, quais sejam: evidência, análise, síntese e enumeração.

Para DESCARTES (1979) o processo do conhecimento é formulado com base na análise e sínteses. A análise é o processo que pode permitir a decomposição do todo em partes constitutivas, no sentido do mais para o menos complexo. E, a síntese é o processo que pode levar à reconstituição do todo, previamente decomposto pela análise, seguindo do mais simples ao mais complexo.

No Discurso do método (DESCARTES, 1979), mostra que o conhecimento possibilita o controle da natureza e que portanto, a ciência é útil para a vida humana. Assim, tendo em vista sua constante preocupação com as condições materiais de existência humana, decide constituir a sua física, na esperança dela extrair uma mecânica e uma medicina.

Filosofar é para Descartes a preocupação mais importante para descobrir a verdade. Desta forma, o caminho percorrido por ele para chegar às primeiras verdades evidentes, constante no embasamento de todo seu sistema, é que “ao duvidar de tudo, chega à certeza de que é um ser pensante, de que Deus existe, de que existem o seu próprio corpo e os corpos dos quais tem sensações” (ANDERY et al. 1988, p.199).

Descartes passa a duvidar da existência de todas as coisas, principalmente das relativas aos sentidos, embora esta dúvida não possa pairar sobre o próprio pensamento, cuja existência fica evidente pelo próprio fato da ocorrência da dúvida. Em sua frase célebre “penso, logo existo”, está sua conclusão de que é ele um ser pensante e que, portanto, existe. Passando a refletir sobre a dúvida, percebe-a como imperfeita quando comparada ao conhecimento. Na busca pela origem da idéia de perfeição, presente nele, e, portanto superior a ele próprio (ser imperfeito), conclui que deve existir algo perfeito fora dele: Deus. Na existência de Deus, Descartes fundamenta a possibilidade do verdadeiro conhecimento, alcançado através da razão. (ANDERY et al., 1988, p. 200)

Para Descartes, só é claro (acessível) aquilo que a inteligência concebe sem o uso da imaginação e dos sentidos. Para ele só é claro o que é matemático e especificamente geométrico. A explicação mecânica do mundo vai ser identificada no pensamento de Descartes em relação ao mundo físico e em relação aos sentimentos do próprio homem. Assim, para Guimarães (1999) desde que Descartes cristalizou de modo definitivo a idéia da divisão da ciência em humanas e exatas, é possível observar uma vasta gama de atitudes e comportamentos compatíveis com a idéia dominante do universo como um sistema mecânico, casualmente emergido de um caldo de matéria de modo fortuito.

Galileu Galilei, Bacon e Descartes acreditavam ser possível conhecer a realidade e se chegar a verdade das coisas por meio de um método sistemático. Contudo, para cada um, o caminho a seguir para obter o conhecimento válido é distinto: Galileu toma o método hipotético-dedutivo, Bacon insiste no método indutivo por meio da observação e da experimentação e Descartes defende a razão, como princípio absoluto, sustentando o método dedutivo.

Comte: um olhar científico para o social

As ciências exatas e naturais dominaram o pensamento moderno, mas as questões referentes às formações e às relações sociais necessitavam de estudo científico uma vez que as tentativas de explicar a sociedade ainda eram efetivadas por meio dos pensamentos filosóficos e religiosos. Os primeiros estudos sobre a sociedade humana foram iniciadas por filósofos gregos, como Platão e Aristóteles, que distanciando-se das sociedades de sua época, propunham sociedades ideais.

Na Idade Média predominavam idéias religiosas colocadas em termos absolutos, inquestionáveis, dogmáticos e moralmente rígidos, tendo em vista o poder centralizador da Igreja quanto a validação, produção e difusão do conhecimento válido. Com o enfraquecimento da Igreja no início da idade moderna, autores influenciados pela leitura dos clássicos da Antigüidade, passaram a tratar os fenômenos de forma mais realista e sistemática, dentre outros destacamos Maquiavel, Hobbes, Locke, Jean-Jacques Rosseau, Giambattista Vico, Montesquieu, Saint-Simon, contudo foi no século XIX, com Augusto Comte, Émile Durkheim, Max Weber e Karl Marx que a investigação dos fenômenos sociais ganhou um caráter verdadeiramente científico.

Tradicionalmente o filósofo francês Augusto Comte é considerado o Pai da Sociologia, por ter cunhado o termo “Física Social” e mais tarde “Sociologia” e em 1839, quando ministrava o seu Curso de Filosofia Positiva, ter lançado as bases da Sociologia como ciência positiva. Contudo, foi com Émile Durkheim que a Sociologia passou a ser considerada um ciência e se desenvolveu. As obras de Durkheim foram importantíssimas para definir os métodos de trabalho dos sociólogos e estabelecer os principais conceitos da nova ciência. Segundo Durkheim (op. cit. LÖWY, 1991:41), o grande mérito de Comte foi sustentar que as leis que regem a sociedade são semelhantes as que regem a natureza e, portanto, o método aplicado pelas ciências naturais servem para descobrir as leis na sociedade.

A Sociologia nasceu positivista, pois foi o Positivismo a primeira corrente do pensamento a propor uma teoria social e a organizar alguns princípios a respeito do homem e da sociedade, tentando explicá-lo cientificamente. Segundo Löwy (1991), a idéia de uma ciência da sociedade, elaborada segundo o modelo científico-natural, é realizada mais explicitamente no século XVIII, com a filosofia das luzes, quando o movimento enciclopedista contesta a ideologia dominante da época, a ideologia clerical, feudal e absolutista. Assim, o positivismo em um primeiro momento, até o início do século XIX, aparece como uma visão social de mundo utópico-crítico, mas é com Auguste Comte que há uma mudança de direção.

Vivendo na França num momento pré-revolucionário, quando a burguesia ascendia ao poder, Comte tomou partido da parcela mais conservadora da burguesia, tornando-se defensor do regime ditatorial e não-parlamentarista, empenhou-se em criar condições para fortalecer este poder e impedir quaisquer ameaças democratizantes ou revolucionárias. Neste sentido, a filosofia e a reforma das ciências propostas por Comte objetivaram sustentar esta ideologia, suas idéias de reforma da sociedade e até a criação de uma religião (ANDERY et al., 1988, p. 379)

As escolhas políticas de Comte, propiciaram um outro direcionamento ao positivismo que em seu início guardava uma dimensão crítica, utópico-científica e de certa forma revolucionária, mas com ele, assume um teor ordeiro.

Denominando-se continuador de Condorcet[4] e de Saint-Simon[5], mas contrário as suas posturas críticas e revolucionárias, Comte vai defender o fim da crítica e da negatividade, inibindo a dimensão revolucionária desse pensamento. Para Comte o método positivo deve consagrar teoria e prática em defesa da ordem real. Assim, o positivo significa para Comte o real, o útil, a certeza, o preciso, o oposto ao negativo, a ordem. (LÖWY, 199137-38)

Investigando o positivismo, Löwy (1999:35-36), aponta a existência de três idéias centrais:

-          as leis que regulam o funcionamento da vida social, econômica e política são semelhantes às leis naturais, invariáveis e independentes da vontade humana, reinando na sociedade uma harmonia semelhante à da natureza;

-          os métodos e procedimentos para conhecer a sociedade devem ser exatamente os mesmos que são utilizados para conhecer a natureza pelas ciências naturais, visto que o funcionamento da sociedade é regido por leis naturais do mesmo tipo; e

-          da mesma forma que as ciências da natureza são ciências objetivas, neutras e livres de juízos de valor, de ideologias políticas, sociais ou outras, as ciências sociais devem funcionar exatamente segundo esse modelo de objetividade científica.

 

Segundo Löwy (1991:36), a partir destes princípios o positivismo defende a necessidade e a possibilidade de uma ciência social completamente desligada de qualquer vínculo com a classe social, com as posições políticas, os valores morais, as ideologias, as utopias e as visões de mundo. Esse conjunto de valores ou opções ideológicas são percebidas pelo positivismo como prejuízos, preconceitos ou prenoções. Assim, a idéia fundamental do método positivista é que a ciência só pode ser objetiva e verdadeira se eliminar totalmente qualquer interferência desses preconceitos e prenoções.

Percebendo a necessidade de compreender o social cientificamente e imbuído do espírito positivo ordeiro, Comte formula sua concepção de ciência que tem por objeto o estudo dos fenômenos sociais, semelhante a investigação dos fenômenos astronômicos, físicos, químicos e fisiológicos. Tomando como objeto de estudo as relações sociais da humanidade, propõe como forma válida o conhecimento científico positivo, baseado na observação dos fatos e nas relações entre fatos que são estabelecidos pelo raciocínio.

Quanto ao método adotado na Sociologia Positiva de Comte, podemos perceber que ele herdou de Bacon a idéia de que somente são reais os conhecimentos sobre os fatos observados. Neste sentido, o verdadeiro espírito positivo de Comte consiste em “ver para crer”, investigar para conhecer e concluir o que será. Para Comte o conhecimento científico positivo possui duas características constantes: é sempre certo e possui algum grau de precisão, neste sentido acredita que o conhecimento científico ao contrário do conhecimento especulativo não admite dúvidas e indeterminações. Contudo, embora certo, o conhecimento científico é, também, relativo, pois os homens só o alcançam a partir de suas possibilidades sensoriais e o utilizam a partir de seu interesses. (ANDERY et al.,1988:388-389)

Segundo Comte (op. Cit. ANDERY et al.,1988), o único caráter essencial do novo espírito filosófico consiste em sua tendência necessária a substituir, em todos os lugares, o absoluto pelo relativo. Em sua obra Discurso sobre o Espírito Positivo, COMTE (1990), supõe que o pensamento nem sempre foi marcado por estas características. O pensamento positivo, existe em vários ramos do conhecimento, fruto de uma longa história do pensamento, contudo Comte acreditava estar trazendo uma contribuição fundamental para o último ramo do conhecimento: a Sociologia.

Uma das grandes contribuições de Comte, presente no Discurso sobre o Espírito Positivo, está no seu esforço em traçar a história do pensamento humano, que ele denominou de “Lei dos Três Estados”. Nesta teoria, a partir de uma sucessão necessária, o pensamento humano passaria por três estados de conhecimento o teológico, o metafísico e o positivo. Este último, considerado por Comte a forma mais avançada de pensamento, que tem a Sociologia como a ciência mais completa e profunda.

Segundo Andery (1988:383), embora Comte expresse esta lei como absoluta, não acredita que todas as áreas do conhecimento se desenvolvam concomitantemente e percebe esta lei como uma regra histórica do desenvolvimento da humanidade e do desenvolvimento individual. A “Lei dos Três Estado” carrega consigo uma concepção de história: a evolutiva. Assim, o espírito humano, por sua natureza emprega sucessivamente em suas fases de desenvolvimento e de suas investigações, três métodos de filosofar que se excluem mutuamente.

Para Comte a ordem constitui a condição fundamental do progresso e este a meta essencial para a ordem. Ordem e progresso são assim duas condições fundamentais da civilização moderna e permeiam a visão de história, a concepção de sociedade e a concepção de ciência de Comte. Concebendo o conhecimento científico como real, útil, preciso, certo e positivo, Comte afirma que não basta apenas conhecer a natureza, mas interferir nela, tendo em vista o benefício humano, em poucas palavras, é preciso prever para prover (ANDERY, 1988:384),

Por suas concepções a respeito de sociedade e ciência, Comte será tomado como um grande representante dos interesses modernos da burguesia que, no século XIX assume o poder e passa a adotar um caráter conservador. Neste sentido, é possível verificar sua influência em países da América Latina, como por exemplo o Brasil.

 

Considerações finais

A ciência moderna nasce com o capitalismo e substituiu a preocupação do teocentrismo medieval quanto a relações Deus-homem, enfatizando a relações entre o homem e a natureza. Esta mudança proporcionou a certeza sobre a capacidade do ser humano em conhecer para transformar a realidade. A descoberta humana que é possível ver, conhecer (pela razão ou pela sensibilidade) e prever a realidade por métodos sistemáticos abriram uma série de possibilidades, dentre elas a de controlar a natureza.

O homem moderno acredita ser possível descobrir a verdade das coisas, e para se chegar ao conhecimento válido a fé e a contemplação não são mais satisfatórios, é fundamental usar métodos sistemáticos, técnicas de pesquisa e instrumentos que permitam ver e conhecer com precisão, com certeza.

O uso da razão, de dados sensíveis, da experiência e da observação são traços marcantes entre pensadores modernos, embora ocorram de forma diferenciada entre Galileu, Bacon, Descartes e Comte, fundadores da ciência moderna. Suas descobertas permitiram construir uma nova ordem, o capitalismo.

A visão de mundo que dominou o cenário político por muito tempo estruturou-se a partir de valores e referencias mecanicistas-reducionistas. O método científico de Decartes e as leis de Newton apresentaram-se como verdades inquestionáveis e alimentaram a crença de que a Terra funcionasse com a precisão semelhante de uma máquina. Essa lógica estendeu-se tanto ao homem quanto a natureza que passaram a ser tratados como máquinas de um sistema fechado, cristalizando-se a crença de que tudo no universos era separado de tudo, como peças menores montadas que se conectam de modo preciso e podem funcionar como um “bom relógio”. Estas idéias alimentaram as vaidosas promessas de felicidade técnica idealizadas pelo capitalismo cientifico, mas aos poucos o sonho parece se transformar em um pesadelo.

O pensamento de que a ordem é necessária para o progresso permitiu a classe burguesa dominante centralizar o poder e controlar sujeitos históricos, levando alguns a profunda miséria. A idéia de que a sociedade é uma instituição natural, ocultou as diferenças e permitiu a sustentação da ideologia dominante, veiculada principalmente pela educação.

No sistema capitalista industrial a natureza foi por muito tempo percebida como mero recurso para produção de bens, serviços, lucros e acúmulo de riqueza. Inspirada no pensamento científico ocidental moderno a classe dominante, a partir de seus interesses de acumulação do capital, sustentou a idéia de separação entre homem-natureza, ordem como necessária ao progresso, desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico e natureza constituída por recursos ilimitados, motivando uma competição acirrada entre as sociedades para uma alta produção e consumo que sustentasse o enriquecimento e a supremacia de uma minoria, contudo esta lógica simplista corroborou para a desordem na biosfera.

 

Referências Bibliográficas

ANDERY, M. A. et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Rio de Janeiro, 1998.

BACON, F. Novum organum. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção os pensadores)

CHAUÍ, M. Janela da alma, espelho do mundo. In: NOVAES, et al. O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

CHAVES, S. N. Racionalismo e Empirismo na construção de conhecimento biológicos. In: Ver a Educação, Belém, v. 4., n. 2, p. 77-95, jul./dez., 1998.

COMTE, A. Discurso sobre o espírito positivo. Tradução: Maria Ermantina Galvão G. Pereira São Paulo: Martins Fontes, 1990.

DESCARTES, R. O discurso do método. São Paulo: Martins Fontes, 1979.

GUIMARÃES, C. A. F. O Novo Paradigma Holístico. Disponível em: <http://www.geocities.com/vienna/ 2809/holistic.htm> Acesso em: 15 jan. 1999.

JAPIASSU, H. Nascimento da Ciência Moderna. In: Nascimento e Morte das Ciências Humanas. 2.ed. Rio de Janeiro; F. Alves, 1982 (p. 1 à 168).

LAKATOS, E. M. Métodos Científicos. In: Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 1982.

LÖWY, M. Positivismo. In: Ideologias e ciências sociais: elementos para uma análise marxista. 7. ed. São Paulo: Cortez, 1991.

SACRS, O. Ver e não ver. In: Um antropólogo em Marte: sete histórias paradoxais. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.



[1] Trabalho apresentado a disciplina Pesquisa Educacional, ministrada pelas professores Silva Nogueira, Rosângela Lima, Ronaldo Lima e Ilda Estela Oliveira, do Curso de Mestrado Acadêmico em Educação, coordenado pelo Centro de Educação, da Universidade Federal do Pará, em 2003.

[2] Silogismo é o método de dedução formal que a partir de duas premissas, infere-se uma terceira premissa, denominada conclusão.

[3] Princípios do método das coincidências constantes: aparecendo a causa, dá-se o fenômeno,; retirando-se a  causa, o efeito não ocorre; variando-se a causa, o efeito se altera. (Lakatos, 1982)

[4] “Talvez o primeiro autor que se pode relacionar como pai do positivismo seja Condorcet — filósofo ligado à Enciclopédia—, que foi talvez o primeiro a formular de maneira mais precisa a idéia de que a ciência da sociedade, nas suas várias formas, deve tomar o caráter de uma matemática social, ser objeto de estudo matemático, numérico, preciso, rigoroso. É graças a essa matemática social que poderá existir uma ciência dos fatos sociais verdadeiramente objetiva. Até aquele instante, ele considerava que havia existido uma teoria da sociedade submetida aos preconceitos e aos interesses das classes poderosas (...) Ele é contra o controle do conhecimento social pelas classes dominantes da época, isto é, pela Igreja, pelo poder feudal, pelo Estado monárquico, que se arrogavam-se o controle de todas as formas do conhecimento científico. Trata-se então de romper com esse controle do conhecimento e observar nas ciências sociais um desenvolvimento tão científico, objetivo e seguro, quanto o das ciências naturais.” (LÖWY, 1991:37)

[5] Discípulo direto de Condorcet, que utiliza pela primeira vez o termo positivo aplicado à ciência (Ciência positiva). Pretendeu formular uma ciência da sociedade a partir do modelo biológico. Identificando-se como socialista utópico fez duras críticas a aristocracia e ao clero, definindo-os como parasitas do organismo social. (LÖWY, 1991: 38)

publicado por jondisonrodrigues às 14:18

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